A causa
da crise que vivemos foi o desequilíbrio na maior economia do mundo, os Estados
Unidos. E os ataques de 11 de setembro têm a ver com isso. "Depois da ofensiva
terrorista, o governo americano se envolveu em duas grandes guerras, no Iraque
e Afeganistão, e começou a gastar mais do que deveria", diz Simão
Davi Silber, professor do departamento de economia da Universidade de São Paulo
(USP). Para piorar a
situação, ao mesmo tempo em que o país investia dinheiro na guerra, a economia
interna já não ia muito bem - uma das razões é que os Estados Unidos estavam
importando mais do que exportando. Em vez de conter os gastos, os americanos receberam ajuda
de países como China e Inglaterra. Com o dinheiro injetado pelo exterior, os
bancos passaram a oferecer mais crédito, inclusive a clientes considerados de
risco. Aproveitando-se
da grande oferta a baixas taxas de juros, os consumidores compraram muito,
principalmente imóveis, que começaram a valorizar. "A expansão do
crédito financiou a bolha imobiliária, já que a grande procura elevou o preço
dos imóveis", diz Silber. Porém, depois disso, chegou uma hora em que a taxa de juros começou a
subir, diminuindo a procura pelos imóveis e derrubando os preços. Com isso,
começou a inadimplência - afinal, as pessoas já não viam sentido em continuar
pagando hipotecas exorbitantes quando as propriedades estavam valendo cada vez
menos.
Nesse momento, faltou dinheiro aos bancos,
que em um primeiro momento foram ajudados pelo governo americano. Só que, ao mesmo tempo,
surgiram críticas a essa política de socorro aos banqueiros. Frente à pressão política, a
Casa Branca decidiu que não ia mais interferir, deixando o banco Lehman
Brothers quebrar. O fechamento do quarto maior banco de crédito dos
Estados Unidos causou pânico e travou o crédito. Chegou a crise, que prejudica também o nosso país.
"Sem crédito internacional, também diminui o crédito no Brasil, caem as
exportações e o preço das nossas mercadorias aumenta o risco e a taxa de
juros", explica Silber. O economista também afirma que as recessões
são recorrentes, mas essa é maior do que de costume. "Uma crise dessa
intensidade não é comum, a mais parecida com ela foi a de 1929", afirma
Silber.
158 anos, cerca de 10 mil funcionários,
quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos: assim era o banco
americano Lehman Brothers até 2008, quando foi protagonista da maior falência
da história americana.
Há exatamente três anos, em 15
de setembro de 2008, a instituição pediu concordata – um modo mais suave
para a palavra falência, que preserva os créditos dos devedores, já que vinha
acumulando prejuízos com a crise hipotecária dos EUA.
A quebra
do Lehman Brothers representa um marco: a falência do banco desencadeou a crise
econômica daquele ano, que se arrastou por 2009 e ainda gera reflexos em várias
economias mundiais.
Em efeito dominó, outras grandes
instituições financeiras quebraram. Em poucos dias, houve a falência técnica da
maior empresa seguradora dos Estados Unidos - a AIG (American International
Group).
O PIB
(Produto Interno Bruto, que é a soma de todas as riquezas do país) da zona do
euro teve uma queda de 1,5% no quarto trimestre de 2008 em relação ao trimestre
imediatamente anterior - a maior contração da história da economia da zona
econômica.
No
Brasil não foi diferente, grandes empresas como Sadia, Votorantim e Aracruz
Celulose registraram perdas bilionárias.
Entenda
a crise da economia dos EUA e sua extensão
Ontem
ocorreu um fato histórico na Bovespa. O circuit breaker, mecanismo automático
de interrupção dos negócios em caso de forte queda, foi acionado (entenda a
importância bolsa de valores). Isso tudo por temor de que a crise dos EUA não
termine tão cedo. Mas afinal, por que a crise é tão séria? O que tudo isso,
aliás, pode influenciar na sua vida? Para falar disso, precisaremos conhecer um
pouco mais da maior potência econômica, militar e política de toda a história
da humanidade: os Estados Unidos da América.
Com
pouco mais de 300 milhões de habitantes, os EUA possuem um PIB de aproximadamente US$13,8
TRILHÕES. Para efeito de comparação, os países da União Européia (num
total de 27 países até 2008, incluindo 4 países do G8 – grupo dos países mais
ricos do mundo e mais a Rússia - que são Alemanha, Itália, França e Reino
Unido) é de US$16,8 TRILHÕES. Como se vê, sozinho os EUA produzem quase o mesmo
que todo o bloco europeu. Sozinho, os EUA importam US$ 2 TRILHÕES em produtos e
serviços do resto do mundo. Pela
bolsa de Nova York são negociados US$35 TRILHÕES em ações todo ano. Na
bolsa NASDAQ, voltada para ações de empresas do ramo tecnológico, são outro
US$17 TRILHÕES. Com estes números, fica evidente que quando falamos de EUA,
falamos em valores realmente vultosos de dinheiro. É o centro do capitalismo.
E como
começou toda esta crise? Há muitos sites dando ótimas explicações, a começar
pela Folha. Faço aqui um resumo e compilação do que li em diversos sites e
blogs de economistas, num passo-a-passo do que levou à crise:
1 - logo
depois da crise das empresas "pontocom", em 2001, o Federal Reserve
(Fed, o BC americano) passou a reduzir sua taxa de juros, a fim de baratear
empréstimos e financiamentos e encorajar consumidores e empresas a voltarem a
gastar;
2-
funcionou! Os consumidores voltaram a comprar. Com a compra aquecida de
imóveis, os preços destes começaram a subir. Os imóveis viraram fonte de
investimento: compra-se barato hoje para, num futuro, revender por um preço
maior e lucrar com a diferença, ou simplesmente ter a garantia de um investimento
valorizado;
3 –
cresceu a procura por hipotecas, ou seja, os americanos pediam dinheiro
emprestado aos bancos dando como garantia de pagamento as suas próprias casas.
Usavam este dinheiro para consumir mais e mais e, inclusive, comprar mais de
uma casa;
4
–grandes empresas hipotecárias começaram a emprestar dinheiro para uma classe
de mau-pagadores e mesmo de inadimplentes, a chamada “subprime”. Neste caso,
claro, os juros pelo risco é maior, o que garante maiores lucros para a empresa
que empresta o dinheiro. E estamos falando aqui em muito dinheiro em hipoteca.
Para se ter idéia, Fannie Mae e Freddie Mac (duas grandes hipotecárias)
detinham quase metade dos US$12 TRILHÕES em hipotecas dos EUA;
5 - a
partir de 2001, as financiadoras deste segmento começaram a 'empacotar' este
crédito e venderam estas carteiras para bancos de investimento. Desta forma,
elas recebiam antecipadamente o valor das operações. E os investidores recebiam
o valor emprestado e mais o juro que, no segmento subprime, é bem maior. Este
retorno mais elevado atraiu gestores de fundos e bancos em busca de retornos
maiores. Para se ter uma idéia, hoje, 4 em cada 5 hipotecas estão vendidas e só
uma está com o credor original;
6 – mas
o Fed precisou aumentar os juros e o consumo diminuiu e começaram a comprar
menos imóveis, o que fez o preço dos mesmos começar a cair. Logo, aqueles
títulos hipotecários começaram a perder valor. Surgiu, ainda, a inadimplência
devido a um crescimento menor da economia, maior desemprego e custo de vida. As
pessoas começaram a deixar de pagar as hipotecas;
7 – os
bancos emprestam entre si dinheiro. Mas com o cenário de possível inadimplência
nas hipotecas subprime, os bancos não queriam mais emprestar dinheiro entre si,
pois um não sabia se o outro estava lastreado sobre o pagamento daquelas
hipotecas que não seriam pagas, ou seja, podres. Com isso, o valor dos títulos
lastreados em hipotecas despencou e o juro no empréstimo interbancário
aumentou. É a chamada “crise de confiança”, ou seja, com medo de que o banco
tomador do empréstimo não possa pagar, os bancos param de emprestar dinheiro
entre si;
8–
acontece que as pessoas e empresas precisam retirar dinheiro do banco. Querem
fazer um saque para consumir, investir, ou pagar impostos, por exemplo. E os próprios
bancos precisam financiar ou rolar dívidas deles próprios, contraídas em
operações cotidianas. Então os bancos, muitas vezes, sem ter dinheiro próprio
suficiente, precisam de crédito para cobrir temporariamente esta despesa. Com
este crédito restrito devido aos altos juros, os bancos não conseguem garantir
que haverá dinheiro para as pessoas retirarem e nem para pagar suas dívidas. E
aí, diz-se que o banco está com problema de insolvência;
9 – aqui
é quando entram os Bancos Centrais, injetando dinheiro a juros baixos para
garantir dinheiro no caixa dos bancos. Se isso não resolver, a solução é abrir
falência (e sim, se você tivesse dinheiro lá ele simplesmente sumiria) ou
tentar que alguém compre o banco e garanta dinheiro no caixa. Diversos bancos tradicionais
acabam sendo incorporados por outros ainda maiores, numa tentativa de evitar
uma quebradeira e, pior, uma crise de confiança, aonde todos iriam aos seus
bancos retirar seus dinheiros e aí todos os bancos quebrariam de uma só vez.
Outro problema: se você perde seu dinheiro, você não compra. Então, há menos
consumo, menos emprego e, assim, ainda menos dinheiro circulando. Agora,
lembre-se que não são apenas pessoas que têm dinheiro em bancos: empresas
também guardam seu dinheiro lá para pagamento de dívidas e investimentos. Dá
para vislumbrar o estrago que seria se esse dinheiro sumisse;
10 – mas
além dos bancos, as hipotecas que deixam de ser pagas espalham o prejuízo e
desconfiança por toda a cadeia daqueles que compraram títulos lastreados em hipotecas.
No início deste ano, investidores estrangeiros detinham nada menos que US$ 1,5
trilhão em títulos da Fannie Mae e Freddie Mac. Ou seja, os estrangeiros podem
não receber o dinheiro e não conseguiriam honrar suas dívidas e pagamentos.
Então, imagine que lá na China comece a ocorrer o mesmo. Os bancos de lá não
sabem quem está lastreado sobre títulos hipotecários “podres” dos EUA, e
decidem emprestar dinheiro a juros ainda mais altos, dificultando o crédito. Os
bancos que não conseguem crédito o suficiente, acabariam falindo, o dinheiro
sumiria do mercado, as pessoas consumiriam menos, produziriam menos, teria mais
desemprego, etc.
11 -
neste cenário onde as pessoas consomem menos sobra mais comida, petróleo,
ferro. Se há mais oferta que demanda, o preço destas “commodities” cai. Se o
preço delas cai, os produtores que possuem contratos que serão pagos no futuro,
ficam no prejuízo. Afinal, você produz sua commodity com os custos de hoje, mas
no futuro ela fica muito mais barata e o pagamento que você recebe não paga nem
o custo de produção. No vermelho, você precisa de mais dinheiro emprestado dos
bancos, mas os bancos não estão mais emprestando tão facilmente e o produtor
também pode vir a quebrar. E mesmo quando você consegue produzir, muitas vezes
precisa de crédito para custear o envio da produção para outro país, por
exemplo. E este empréstimo também ficaria dificultado em caso de retração da
oferta de crédito. Com isso você não consegue vender por um preço bom, não
cobre suas dívidas e demite funcionários. Menos dinheiro circulando, mais
desemprego, menos consumo. E assim temos um ciclo infinito de mais desemprego e
menos consumo - é a chamada recessão.
É
importante frisar aqui que o crédito é muito importante no mundo capitalista. A
escassez do mesmo faz as engrenagens emperrarem. Como a desconfiança é
generalizada pelo mundo, todo o sistema capitalista pode sofrer um solavanco e
entrar em recessão junto com o coração dele, os EUA, que foram
irresponsavelmente os criadores de um buraco sem fim de empréstimos que poderá
tragar o resto do mundo. Como se vê, o modelo neoliberal permitiu que os
mercados ultrapassassem o limite da irresponsabilidade. E agora, para arrumar o
prejuízo, será necessário dinheiro de quem não tem nada a ver com a história: dos
contribuintes pagadores de impostos
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